Entrevista ao presidente do Fórum Centro Portugal sobre necessidade de abertura de Monte Real à aviação civil


entrevista realizada para o site Low Cost Portugal

Autarquias, entidades, empresas e regiões do centro do país uniram esforços com o objectivo de abrir o aeroporto militar de Monte Real à aviação civil.

Com o adiamento da construção do novo aeroporto de Lisboa – Alcochetenasceu a oportunidade de um aeroporto complementar à Portela. Alverca, Sintra e Montijo são as soluções avançadas. A região centro pede que Monte Real seja tida em análise.

 

O Fórum Centro Portugal faz-se ouvir pela dinamização de Monte Real à aviação civil. Entrevistámos Manuel Queiró, que preside à associação.

O que é o Fórum Centro Portugal e para que fins foi criado?
É uma associação sem fins lucrativos criada por diversas personalidades em 2008 com a finalidade de promover a defesa dos interesses do centro do País e as condições do seu desenvolvimento económico, social e ambiental. Tem servido como plataforma para a acção conjunta de autarquias e associações empresariais, nomeadamente junto dos sucessivos governos.

Há quantos anos se debate o centro do país com a necessidade  de ter um aeroporto que sirva a região? Porque é que ainda esse objectivo ainda não saiu do papel?
Desde os anos 60. Foi sempre uma reivindicação perante o poder central, assumida pelos mais variados protagonistas. A resposta nunca foi frontalmente negativa. Pelo contrário, houve sempre promessas mais tarde seguidas de explicações para não se avançar de imediato. Normalmente invocava-se a oposição dos militares, outras vezes tratava-se de um simples adiamento até a pressão se atenuar. É hoje claro que o poder central resistirá sempre a qualquer aeroporto internacional entre Lisboa e Porto. Para o centro do País não ficar demasiado longe deste tipo de serviço (por comparação com a cobertura do território espanhol, por exemplo), terá de contar com os seus próprios instrumentos de poder, locais ou regionais. E com o investimento privado, porque o público dispensado pelo Estado central, por menor que seja, não aparecerá.

Forum Centro Portugal reuniu 300 autarcas em abril

A suspensão do projeto do Novo Aeroporto de Lisboa abre uma porta à abertura da Base Aérea de Monte Real à aviação civil?
Parece-nos claramente que sim. O Fórum Centro Portugal já vinha defendendo não haver condições, no estado em que o nosso País se encontra, para construir um aeroporto de raiz. Países bem mais saudáveis financeiramente estão a apostar no aproveitamento de infraestruturas militares para uso civil como forma de minimizar os custos e maximizar os investimentos, e ao mesmo tempo efectuar uma boa cobertura territorial pelo serviço aeroportuário. Essa política desenvolve-se a par com a abertura da actividade aeroportuária à iniciativa privada. É pena que tenhamos de chegar a extremos financeiros para adoptar as soluções realistas e responsáveis que os outros já seguem.

Os estudos sobre a Base de Monte Real e a sua adaptação à aviação civil não foram concluídos, porque motivo?
Os estudos resultavam da colaboração entre o Fórum e o anterior Governo, porque só assim eles seriam relevantes e teriam consequências, mas o Ministro António Mendonça passou a ignorá-los e o Fórum viu-se obrigado a suspender o processo. O Secretário de Estado das Obras Públicas chegou a participar na apresentação pública do Grupo de Trabalho, constituído por representantes da Força Aérea, do INAC, da NAV e da ANA e ainda por professores das universidades de Coimbra e de Aveiro e do Instituto Politécnico de Leiria, mas o que viria com a mudança de ministro alteraria também a sua posição.

O Professor António José Pais Antunes, reconhecidamente um dos mais credenciados académicos portugueses ao nível de planeamento do território e dos transportes, foi na altura escolhido por consenso com o Governo para coordenar este grupo, não restando qualquer tipo de dúvidas sobre a independência e o rigor técnico dos trabalhos a efectuar. Mas como lhe disse com a mudança de ministro o anterior Governo distanciou-se e passou a ignorá-los.

O actual Governo anunciou a suspensão do Novo Aeroporto de Lisboa e o eventual aproveitamento de uma infra-estrutura já existente para servir de complemento ao Aeroporto da Portela. Na nossa opinião haveria vantagem para o País em incluir Monte Real nas opções a considerar.

O Fórum Centro Portugal está 100% focado em ser a solução “+1”? Ou acredita que tem condições para um aeroporto regional com potencialidade de crescimento a curto e médio prazo?
Claro que não. A solução “+1” em Monte Real faria sentido dentro de uma visão descentralizada do território. Mas não há que ter ilusões, essa não é a que vigora em Portugal. A escolha vai ser feita com base em critérios válidos, acreditamos, mas deverá assentar exclusivamente nos interesses do serviço para Lisboa. A nós compete-nos chamar a atenção para outra solução, mais afastada, mas que simultaneamente serviria para fechar uma lacuna no território e no serviço às populações, e poderia assentar numa concessão a privados, evitando investimento público.

Não havendo intenção de investimento estatal para a adaptação de Monte Real ao tráfego civil, o centro do país conseguira optar por uma solução de investimento privado? Há interessados?
A nossa opção já é essa. A complementaridade com a Portela seria apenas um aproveitamento adicional de uma infra-estrutura dedicada em primeira mão ao serviço regional, e esse serviço justificará, a nosso ver, o interesse de investidores. Mas a abertura de um concurso depende inteiramente do poder central. Não há outra hipótese, infelizmente.

Já realizaram contactos com companhias aéreas? Manifestaram interesse?
Assim que a possibilidade deste aeroporto começou a ser ventilada, alguns investidores e operadores tomaram a iniciativa de contactar as autarquias. Esses contactos foram suficientes para justificar uma avaliação da procura a nível regional e local, que só um estudo mais avançado poderá determinar. Mas o Fórum não tem por si a autoridade para dialogar com possíveis interessados num concurso dependente de uma decisão que lhe escapa inteiramente.

Quais a vantagens de Monte Real?
O aproveitamento da Base Aérea de Monte Real tem vantagens se considerarmos a faixa litoral do País. Para além de poder servir de complemento ao actual aeroporto de Lisboa ela está sobretudo próxima de um dos mais importantes santuários marianos do mundo, o Santuário de Fátima, do Oeste e dos seus empreendimentos turísticos, e ainda dos centros urbanos de Coimbra, Leiria, Figueira da Foz, Pombal e Marinha Grande, podendo assim preencher uma lacuna importante na nossa faixa litoral.

Um factor muito importante é o facto de as suas ligações estarem em grande parte já no terreno: para Lisboa pelas A17 e A8, e futuramente o TGV com uma estação muito próxima; para Fátima a proximidade é suficiente; para as populações do Centro a A1 (a curta distância e com a possibilidade de uma ligação directa a Pombal), o IC8 (idem) e a até a linha do Oeste. Está ainda muito próximo o porto da Figueira da Foz.

Um terminal civil em Monte Real poderia ser realizado apenas com investimento privado?
Mesmo sem a conclusão dos estudos, as apreciações por nós efectuadas convenceram-nos de que a instalação deste aeroporto é um investimento apetecível. O custo da adaptação será reduzido, pois a maior parte das valências aeroportuárias já existem na Base Aérea. Pondo de parte a questão do eventual reforço da pista, a apurar em estudos de especialidade, ficam apenas por realizar a área de estacionamento e o terminal civil, havendo para isso área disponível já servida por táxiway.

Quanto tempo demorariam os trabalhos para capacitar Monte Real de infraestruturas para receber a aviação civil?
Como já referi atrás o grosso das infra-estruturas já existe, incluindo o controlo de tráfego aéreo, os serviços de combate a incêndios e as ajudas à navegação. Construir um terminal civil e uma placa de estacionamento é em princípio o que há a fazer. Percebe-se facilmente que seria uma obra rápida. Os obstáculos não estão aí, é mais difícil vencer as inércias políticas do que propriamente pôr o aeroporto a funcionar.

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