Viagem à música de Goa do século XVI (Parte 2)


Do vinil ao digital - Viagem à música de Goa do século XVI (Parte 2)

Em “Mantra: Musical Conversations across the Indian Ocean”, The Orlando Consort e Shahid Khan (voz), Kuljit Bhamra (tabla) e Jonathan Mayer (sitar) recriam a música que missionários portugueses e habitantes de Goa criaram durante o século XVI, num primeiro momento de contacto.

Na segunda parte da entrevista realizada a Angus Smith (Tenor), falamos do convívio entre a tradição musical europeia e indiana, do trabalho de estúdio do The Orlando Consort e das expectativas que têm relativamente a concertos.

Gravaram em CD os temas que estão a apresentar no espectáculo “Mantra: Musical Conversation sacross the Indian Ocean”. Sendo um universo diferente do anterior portfolio, acham que será bem recebido no mercado da música erudita?
Temos esperanças elevadas pois há uma entrega séria da nossa parte. Estamos conotados com o contexto da música antiga, no entanto, este projecto dá-nos imensa satisfação e é para nós puro entretenimento.

Podemos, de alguma forma, fazer a ponte entre o vosso trabalho e projectos de fusão como os de Hughes de Courson, que envolveu Bach e Mozart com música étnica?
Não posso fazer comparações pois não conheço o trabalho dele. Interpretamos música realizada há cerca de 500 anos, nesse sentido acho que não produzimos algo de original.

Na música de Goa do século XVI a mistura de temas portugueses e indianos é evidente. Esta interacção existiu também na música resultante da presença anglo-saxónica na Índia?
Creio que a interacção existe. Contudo, os portugueses superaram os ingleses na Índia e foi por isso que achámos de todo interessante explorar a tradição de Goa em vez da anglo-saxónica. Acho fascinante o “primeiro momento” de contacto, nomeadamente como é que os navegadores e missionários portugueses reagiram quando ouviram os instrumentos indianos, e como os goeses reagiram aos cantos e ao órgão. No filme “A Missão ” (1986), o realizador Roland Joffe aborda este aspecto, revela a reacção do “novo mundo” à música europeia.

Cerca de 500 anos depois, o que podemos aprender com a música resultante do encontro de dois mundos? O que aprenderam vocês?
Respeito. O que sinto é que os portugueses não só viajaram para a Índia acreditando que a sua música era um instrumento para converter os habitantes locais à cristandade, mas também como um produto superior que devia ser ouvido pelo mundo inteiro. Era e é um reportório fantástico, mas suspeito que após algumas décadas na Índia, os portugueses se aperceberam que era um país com um cenário musical e cultural muito desenvolvido e próprio.

Estiveram em Portugal noutras ocasiões. Prevêem apresentar “Mantra: Musical Conversation sacross the Indian Ocean” no nosso país?
Temos a esperanças elevadas de levar o projecto a Portugal. Seria um sonho tornado realidade. Para mim, a interacção de músicos portugueses e goeses de há cinco séculos é uma história inspiradora e maravilhosa e evidencia as melhores qualidades da natureza humana. Tivemos tanta satisfação em trabalhar neste projecto que seria uma honra apresentá-lo no seu berço espiritual.

Entrevista publicada no Do Vinil ao Digital a 6.06.09

Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado.