Viagem à música de Goa do século XVI (Parte 1)


The Orlando Consort

The Orlando Consort
www.orlandoconsort.com

O grupo The Orlando Consort apresentou a 7 de Maio, no National Centre for Early Music em York (Inglaterra), um reportório que recorda a musicalidade praticada nas igrejas de Goa (Índia) do século XVI. Em “Mantra: Musical Conversations across the Indian Ocean”, os sons crioulos resultantes das missões religiosas portuguesas e das raízes indianas são os principais actores.

A produção vive da colaboração do The Orlando Consort (Matthew Venner – Alto; Mark Dobell – Tenor; Angus Smith – Tenor e Donald Greig – Barítono) com intérpretes em música indiana, neste caso Shahid Khan (voz), Kuljit Bhamra (tabla) e Jonathan Mayer (sitar). Para saber mais sobre esta viagem que segue o rasto da memória sonora portuguesa, entrevistámos Angus Smith. Hoje, apresentamos a primeira parte dessa conversa.

The Orlando Consort especializa-se em música antiga europeia entre os anos 1050-1550. Como nasceu a ideia de se debruçarem sobre os sons vividos em Goa do século XVI?
Em Janeiro de 1994, estive em Goa na minha lua-de-mel. Ficámos maravilhados com o legado da colonização portuguesa. Foi na Basílica do Bom Jesus, que preserva os restos mortais de S. Francisco Xavier, que me questionei sobre o papel do cristianismo na música de Goa durante cinco séculos de presença portuguesa.
Só há cerca de 18 meses tive a oportunidade de me debruçar sobre este tópico, quando um director de festival incentivou o The Orlando Consort a focar-se na música indiana. A este desafio respondemos com pesquisa e trabalho. Mesmo sabendo que não será possível reproduzir fidedignamente a música que se tocava no século XVI em Goa, sabemos que temos um relato de qualidade.

“Mantra: Musical Conversationsacross the Indian Ocean” foi produzido em quantos meses?
A primeira vez que juntámos todos os membros do espectáculo foi em Junho de 2008. Voltamos a reunir-nos em Setembro e Janeiro seguintes, A música fluiu com bastante facilidade e o facto de termos realizado ensaios espaçadamente ajudou-nos a assimilar sons e estilos diferentes.

Como foi realizada a pesquisa musical?
Foi particularmente difícil porque é escassa a documentação que existe sobre a música na colonização portuguesa de Goa. Victor Anand Coelho, um musicólogo de ascendência goesa que reside nos EUA, tem trabalhado sobre o tema. Gostava que a nossa incursão na música antiga de Goa motivasse novas investigações de musicólogos. Queremos contribuir para que se concretize mais conhecimento nesta área.

Foi difícil adaptar música escrita há cerca de 500 anos à actualidade?
A maior parte da música ocidental que utilizámos para o projecto já estava adaptada em edições modernas. Estamos confiantes que a música que cantámos é quase exacta há escrita há 500 anos, poderá ter algumas diferenças mas não podemos ter a certeza absoluta.

Para este trabalho o The Orlando Consort canta em língua utilizada em Goa ou faz uso sobretudo do latim?
A maioria dos temas de música sacra é em latim. No entanto, decidimos também experimentar outras línguas asiáticas, como Punjabi e Árabe.

Realizaram o primeiro concerto em York. Que reacções motivaram no público?
O primeiro concerto do projecto foi no National Centre for Early Music em York, que é uma entidade que tem apoiado o nosso trabalho e que vai colaborar futuramente na divulgação do espectáculo. O concerto teve uma excelente resposta num público misto de ingleses e indianos.

Que reportório apresentaram neste concerto?
A primeira parte foi constituída por música antiga e incluiu peças do compositor português Pedro de Escobar e do espanhol Francisco Guerrero, com um toque de música indiana. Na segunda parte tivemos peças compostas por nós, mas todas adaptadas ao contexto histórico em causa.

O concerto tem muita variedade. Há a fusão entre a polifonia europeia e a improvisação Indiana, bem como há a adaptação entre a música étnica adaptada a temas gregorianos do “velho continente”. Conseguimos também colocar sons de Bollywood no nosso programa, todos contextualizados condignamente.

Esta entrevista foi publicada no Do Vinil ao Digital a 26.05.2009

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