António Sérgio e João Aguardela, a teimosia de se ser independente


Convenhamos, este tem sido um ano horribilis. Tudo devido ao desaparecimento de “figurinhas simpáticas” que aliam o carácter de independência e militância cultural ao de formiguinha trabalhadora. Falo de João Aguardela, João Bénard da Costa, Vasco Granja, Raúl Solnado e, neste fim-de-semana, António Sérgio. As “saídas de cena” que mais me chocam são dos dois mais jovens da lista.

João Aguardela remou contra a maré num tempo em que aliar a música portuguesa à pop era sinónimo de pirosice e revivalismo nacionalista. A música de raízes populares, a fusão e, sobretudo, o Fado, são forças vivas da nossa cultura nos tempos que correm mas na década de 80 poucos eram suficientemente teimosos para remar contra a maré. Nos Sitiados, A Naifa e no projecto pessoal Megafone deixou uma memória activa que leva na próxima quarta-feira, 4 de Novembro, ao CCB vários amigos ao palco em seu nome. A morte venceu João Aguardela, mas o estímulo dos 39 anos do autor fica associado a um prémio anual da SPA a atribuir a criadores que se destaquem na música tradicional portuguesa.

Em Dia de Todos-os-Santos, não houve santo que valesse a António Sérgio. Cerca de 40 anos de serviços prestados nos megahertz associam-no à teimosia de acreditar que fazer “programas de autor” é um acto de rebeldia informativa num panorama de rádio de risos formatados.

Uma boa parte das pessoas recordará António Sérgio como a mais recente voz-off da SIC, o homem dos espaços “Som da Frente”, “Hora do Lobo” e “Viriato 25”. A minha melhor memória dele remonta aos anos 80 onde, com Gustavo Vidal, alimentava uma geração sedenta dos novos rumos que o Metal trilhava. Na rádio Comercial ao Sábado, ouvia a sua voz grave apresentar os recentes LPs de Candlemass, Venom, Possessed, bem como demos de bandas portuguesas. Outro episódio curioso que registei passou-se nos primeiros anos da SIC, num programa de entrevistas, penso, de Paula Moura Pinheiro. Passaram um tema de Napalm Death e perguntaram a António Sérgio se achava que “aquilo” era música, ao que respondeu – dando uma lição – em tom “tudo é música desde que saibamos apreciar”.

Seguindo o exemplo de António Sérgio, talvez fosse o tempo de passar a premiar os criativos que ofereçam originalidade, independência e muita teimosia à rádio.

Artigo publicado no Do Vinil ao Digital a 02.11.2009

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