Jorge Guimarães Silva: “A Web Rádio em Portugal tem limitações e vive de streaming”


A criação de web rádios por parte do Grupo Renascença e RTP, motiva o aprofundamento do saber sobre a produção áudio para o online no nosso país. Juntando o útil ao agradável entrevistamos Jorge Guimarães Silva, é sonorizador na TSF, formador multimédia e autor do blogue A Rádio em Portugal desde 2005.

Desde que a rádio existe, é dada como morta com o aparecimento de novas formas de comunicação “mass media”. A internet representa uma ameaça à rádio como a conhecemos?
JorgeGuimaraesSilva - A Rádio em PortugalNão, de forma alguma e muito pelo contrário. A Internet veio complementar a rádio, dotando-a de novas ferramentas para que as emissoras se mostrem aos seus ouvintes de uma forma que até há pouco tempo era impensável. A Internet elevou a rádio para outro patamar. Acrescentou uma nova via de difusão às emissões hertzianas, com a possibilidade de criar online novas emissoras e levou as estações locais a todo o mundo (sendo locais apenas na emissão hertziana). Também permitiu que se escutassem os arquivos das emissoras, desde que estas o disponibilizem, e tornou as emissoras mais interactivas, com salas de conversação, correio electrónico, etc.

A introdução de ligação internet a receptores pode fomentar a audição de rádios online. Há a possibilidade da rádio mudar de modelo de negócio nos próximos anos?
O modelo de negócio das emissoras já mudou, mas muito pouco. O modelo será mais ou menos assente no que era até há uma década atrás, que era assente exclusivamente na venda de tempo de antena (em spots publicitários ou aluguer de horas a produtores independentes).

Ainda assim, a forma de financiamento das estações será sempre baseado em venda de tempo de antena, embora com a Internet se venda, também, espaço no sítio da emissora, mas agora acrescentando ao som, texto e imagens (fotos e/ou vídeos). Além de tempo antena, a rádio já foi financiada de outras formas, como gravação de discos, de registos sonoros para eventos públicos e outras gravações sonoras. Mas isso foi entre as décadas de 1920 a 1960.

A internet permite que uma pessoa crie e emita a sua rádio. Porque é que bases de web rádios, como a Cotonete, são fenómenos sem grande aceitação? O entusiasmo do ouvinte está sempre dependente do valor acrescentado pelo jornalista e animador?
cotoneteEmbora a plataforma “Cotonete” auto-denomine os espaços criados pelos seus utilizadores de “rádios”, na verdade não é bem assim. As “rádios” são apenas streamings de áudio que os utilizadores vão criando à medida dos seus gostos, que muitas vezes são únicos. Assim sendo não terá muitos internautas à escuta. No entanto, um dos problemas desses espaços é que não fazem mais que repetir uma lista de difusão, normalmente restrita, ao gosto – muitas vezes duvidoso – de quem a escolhe.

Falta o elemento humano, aquele que cria uma ligação emocional com o ouvinte. Falta a incerteza do que será dito a seguir e da música que se escutará. A emoção humana que nenhuma máquina pode imitar. Temos de nos lembrar que quase toda a música está disponível na internet com vídeo. Se apetecer a alguém escutar determinada música, só tem de a procurar. Resumindo, o entusiasmo do ouvinte estará sempre dependente do valor acrescentado do jornalista e animador.

Web rádio e a “satellite radio” são uma realidade que parece não conquistar muitos ouvintes tanto em Portugal como lá fora. Porquê?
A rádio via satélite requer equipamento próprio, normalmente caro, e uma colocação por técnicos cuja mão-de-obra também não é barata. Entre gastar €200,00 ou mais ou comprar uma aparelhagem inteira com direito a colunas, cabos de ligação, amplificador, leitor de CDs e rádio, a metade do preço, é fácil ver qual a escolha. As web rádios não conquistam muitos os portugueses porque transmitem as mesmas emissões tanto na Internet como por via hertziana.

Exceptuando, aqui, algumas emissoras que criaram canais próprios, com diferentes conteúdos. A escuta de rádio já migrou há algum tempo quase exclusivamente para o carro. Isto explica a pouca adesão às web radios. Ainda não há muita oferta de auto-rádios com ligação à web, mas a rádio comum é grátis e as ligações à internet pagam-se.

A Mais Futebol terá sido a primeira tentativa de criação de um operador rádio só para a Web. Porque falhou?
Falta de ouvintes. E se falta quem escuta, não se consegue financiamento para a rádio. Os anunciantes desviam os fundos das campanhas de marketing para onde tem mais visibilidade.

As novas web rádios da Renascença e Antena 1 vão ter, em princípio, programação própria. Em Portugal, haverá ouvintes e publicidade para sustentar estes projectos?
Grupo RenascençaNo caso da Antena 1, ser escutada ou não tem grande problema. O financiamento está assegurado pela contribuição do audiovisual paga por todos nos recibos da EDP. No caso da Renascença, a situação é diferente. Pode conquistar ouvintes, mas nunca serão muito, para já, pelas razões já enunciadas.

O grupo RTP sente a necessidade de ter uma rádio de informação e faz da Antena
1 uma soma de várias vertentes. Uma web rádio pode ser a solução?
Julgo que não. O modelo radiofónico tradicional ainda está muito enraizado nos portugueses. As limitações das web rádios são ainda bastantes, pois ainda tem de se pagar para ter internet – a hertziana é gratuita, basta um receptor barato – e ainda não se podem escutar nos carros, sem equipamento próprio. A banda larga móvel ainda é muito cara em Portugal ronda os €22,50 por 1 GB ou €10,00 por dez horas. Pode-se escutar um milhão de horas ou mais gratuitamente, nas rádios hertzianas.

Com a chegada do Youtube, o podcast é raramente falado. Continua a haver autores e as rádios portuguesas não descuram este “meio”. Pela facto de poder ser ouvido quando quisermos, o podcast vale mais que uma web rádio?
Uma coisa não tira o lugar à outra, pois são complementares. Uma web radio é um streaming de áudio, o podcast é um arquivo áudio que pode ser acedido quando se quiser, podendo inclusive subscreve-las através de um feed RSS, que as descarregará automaticamente para o nosso computador.

Entrevista publicada no Diario2 a 14.12.2009

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