Uxu Kalhus: A chocalhada


O entusiasmo do etnomusicólogo Michel Giacometti (1929-1990) deixou-nos um património vasto de sons da nossa ruralidade. Na aceleração para uma sociedade global em termos culturais e gostos, guardou em fita ritmos que nasceram da “domesticação” da natureza pelo homem.

João Paulo Baltazar (TSF), numa recente reportagem sobre artesãos de chocalhos , falou com João Chibeles Penetra (82 anos) que reflectiu sobre a musicalidade das suas peças. Refere que os rebanhos se distinguiam pela “chocalhada”, isto é, pela soma de sons que emanavam da totalidade dos seus chocalhos. “Nas feiras da Abela ou Garvão ia tudo em chocalhado, aquilo era uma sinfonia. Eram dois dias, os animais a comerem e a tocar uns com um som outro com outro, aquilo era uma música bonita”, constatou o interlocutor.

O tempo passa, as tradições mudam, mas a humanidade sente-se atraída por sonoridades que nascem de objectos do quotidiano. A título de exemplo, temos em actuação em Portugal até Março os Stomp, donos de um espectáculo de percussão com uma larga falange de apreciadores.

Actualmente, música portuguesa de raízes rurais ganha nova vida. Jovens que cresceram a ver a Ronda dos Quatro Caminhos, Brigada Victor Jara e Conjunto António Mafra, nos programas de Júlio Isidro ao Domingo à tarde na RTP, injectam “electricidade” em antigas modas.

É o caso da banda Uxu Kalhus que lança em Fevereiro o trabalho “Transumâncias Groove”. No grupo é notória a fusão de música tradicional portuguesa com Afro-Jazz-Rock-Ska-Classic, como os próprios referem. “A Saia da Carolina” é uma das recriações bem “chocalhadas” deste segundo CD. Do primeiro “Erva Cidreira” tem a seguinte recriação…

Artigo publicado no Do Vinil ao Digital a 22.02.2009

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