Diário Digital: O senhor acompanha o fenômeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?
José Saramago: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.
O comentário de Júlio Garcia é excelente e reflecte o que penso.
Presumo que Saramago também se refira ao facto de no Twitter berrarem todos ao mesmo tempo, mantendo a estrutura rígida dos 140 caracteres, tornando cada novo tweet, de calor do momento, em apenas mais um grunhido.
Duas perspectivas: o monossílabo ou o poder de síntese. Sim, diz-se muito disparate no Twitter, muita gente conta detalhes privados e desinteressantes, usa-se e abusa-se da comédia. Mas 140 caracteres podem ser um fabuloso exercício de síntese. Há haikus com bem menos do que 140 caracteres e nem por isso são monossílabos nem retalhos sem valor, bem pelo contrário. Importa dar às coisas o valor que elas têm e não rejeitar veículos de comunicação num mundo que ser quer cada vez mais ligado.
Saramago à parte, mas os fatos históricos demonstram que iniciamos com grunhidos, depois criamos o vocábulo “realitas” para denotar o existente ao redor.
Evoluímos e construímos riquezas linguísticas para descrever a “realitas” à ponto de, tão somente pelos fonemas, transmitirmos para a mente do ouvinte as complexas e coloridas cenas, enredos, eventos, sentimentos, e todo tipo de grandeza, concreta ou abstrata.
Não há dúvida que o mundo www tem empobrecimento este poder de comunicação, resultando nas “bagaça”, nos “ae”.
“Sei naum intendi”.